(Não) deixam de ser todos Eu

Costumo dizer: "Quem desenvolve um distúrbio alimentar, nunca o cura, apenas aprende a gerí-lo". Oxalá que esteja errado, porque não vejo a hora de viver sem os pensamentos que tanto me assombram.

Maioritariamente, o sentimento de culpa, que tanto me inibe nos dias em que decide aparecer. Sentimento esse que ora aparece por estar a exagerar (ou ter exagerado) no que ingiro, ora aparece por estar a comer pouco... Podem achar estranho, mas sim existem estas duas faces, porque, em menos de um ano, tanto vi-me com 103 kg como com 69 kg (e, para que conste, tenho 1.80 m).

Como podem calcular, quando temos fobia a duas versões nossas, vivemos num constante limbo, onde o controlo rígido da alimentação parece ser a única certeza que temos para não cair para nenhum lado. Ao que vos questiono: "Qual a piada disso?". Logo para mim que adoro ter uma mesa cheia de amigos, comida e bebida.

Oxalá que a situação fosse tão simples como isto, mas não é... porque o Eu (versão atual) entra também ao barulho. 

Nos convívios, anda uma vozinha a dizer "Não podes comer/ beber isso!" e o Eu quer contrariá-la, o que faz com que me foque unicamente na comida e na bebida e, consequentemente, acabo por exagerar em ambos e por não aproveitar os momentos como realmente quero. Para piorar , no dia a seguir vem a outra vozinha a relembrar que exagerei e é daí que vem a culpabilização.

        Obs.: Já percebem porquê que fico reticente ou acabou por não ir quando falam em convívios que envolvam comida à última da hora?

Não é só nos convívios... No dia-a-dia, essas vozinhas não me largam... e um exemplo simples é o lanche da tarde em todo o santo dia. Quando dá-me fome cedo, uma voz diz "Será que aguentas até ao jantar sem comer?" e deixa-me logo a fazer contas à comida. Por sua vez, quando ando enfastiado, a outra voz entra em ação "E não vais comer? Olha que existem metas de proteína a cumprir".

Portanto, um mar (turbulento) de rosas...

Nem imaginam o meu contentamento, quando dou por mim a pensar: "Espera aí... ontem comi e bebi o que tinha a comer e beber e hoje estou feliz", consegui focar-me no momento, na diversão e nas relações. Era tão bom que fosse sempre assim... que o Eu fosse só um.

Felizmente, estes momentos já existem com maior frequência, algo que não acontecia entre fevereiro de 2021 e maio de 2023, e muito graças ao trabalho com o nutricionista e a psicóloga.

Infelizmente, o sentimento de culpa ainda aparece com maior frequência e, muitas vezes, não vem só... traz consigo a desvalorização pessoal, a contagem constante de calorias, a necessidade de realizar exercício de forma excessiva ou a constante necessidade de olhar ao espelho como quem quer averiguar se o shape fugiu.

Como disse no início, é algo que nunca se curará, mas sim que aprendemos a gerir e é isso que tenho feito... Apesar de ser uma relação muito fraca e tóxica, fiz as pazes com as duas faces pelas quais tinha aversão, percebi que partilhamos os mesmos valores que são transversais a qualquer versão minha. Agora tenho é de fortalecer a relação até que o Eu consiga impor mais vezes a sua posição, pois basta uma foto ou um valor na balança para que o Eu enfraqueça e as outras versões se imponham, o que se replica no meu quotidiano.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Estou perdido?!

2025?! e 2026?

Na tentativa de me saudar...