Na tentativa de me saudar...

Desde o meu primeiro trabalho na universidade que digo que quero ser um fisioterapeuta que trabalhe para um todo e não apenas para uma pessoa de cada vez. Depois comecei a estagiar e a trabalhar e comecei a perceber também do que não quero... uma delas é trabalhar em locais monótonos, sem autonomia, onde não somos valorizados pelo sistema e pela organização, onde não conseguimos dar atenção total e o melhor cuidado aos utentes. Nessas alturas, também percebi que o que realmente quero não é apenas trabalhar para um conjunto de pessoas (e até para uma população), é, principalmente, intervir nos espaços e locais onde as pessoas passam mais tempo (escolas e trabalhos). O fantástico é que estas duas podem ser conjugadas!

Aos poucos e poucos, foi com isso que fui trilhando o meu caminho! Primeiro, o mestrado em Saúde Pública, algo que era inegociável e prioritário face ao trabalho. Em seguida, trabalho: numa clínica que podemos referir ser um oásis da autonomia do fisioterapeuta, onde ainda desenhei projetos comunitários; no desporto com um equipa cheia de vontade de saber, aprender e partilhar; e nas lojas de uma das maiores cadeias de bricolage do mundo, ou seja, já estava onde as pessoas estavam.
Se tive sorte neste meu começo? Capaz, mas também tive muita paciência e muita exposição! Sabia quais eram os aspetos inegociáveis e sabia para onde queria (e ainda quero ir), por isso, apresentei trabalho nesse sentido.

Mesmo com propostas que só me iam dar mais visibilidade e responsabilidades e propostas para funções que ambicionava, com 23 anos, rejeitei tudo para poder estar na Madeira, para poder reencontrar-me...
Comecei no clube (a ver se conseguia dar aos atletas, aos adeptos e à estrutura o que nunca tiveram) e a trabalhar nas escolas (novamente onde as pessoas estão, no caso, as crianças). Reencontrei-me... e, por isso, decidi dar uma nova vida ao Saudar - a ideia que vinha a ser maturada desde o 3º ano de licenciatura.

Um ano passou e, apesar de tudo e de já saber como as coisas são, aceitei aventurar-me em mais um ano no clube, desta vez no Campeonato de Portugal... sinónimo de maior exigência e de viagens.

Entretanto surgiram porpostas... ser candidato nas eleições autárquicas ao executivo da câmara. Com o "sim" dado recentemente ao clube, uma dissertação de mestrado por entregar na mesma altura das eleições e as certezas de que, apesar da insistência e interesse de todos os níveis de chefia, não poderia continuar nas escolas após o término do estágio profissional e a abertura do concurso público (por decisão da única pessoa que a podia tomar), decidi abandonar os últimos 2 meses de estágio profissional.

Apesar dessa decisão, não fui suficiente para conseguir gerir tudo...
Foquei-me na campanha e na dissertação e, novamente, aparece uma oportunidade única por parte de uma entidade pública para algo que ambiciona há algum tempo - fundador e gestor de um projeto... a qual deram-me 100% de certezas que aconteceria...

Estas 3 já eram suficientes para esgotar a minha disponibilidade mental... e vocês devem estar a perguntar-se "e o clube?". O clube começou a ser aquele lugar onde sinto que estou estagnado - não quero fazer a minha carreira no desporto... onde, já esgotado mentalmente, tomo diariamente decisões que não vejo serem benéficas para o meu futuro, naturalmente, acabo por tomar decisões menos acertadas e sinto que prejudico o trabalho dos outros e por muito que queira fazer as coisas de forma diferente, não consigo. 
Desde então todas as outras preocupações são para poder fazer algo pela minha terra e pela minhas pessoas, quando isso foi e é a razão pela qual abraço o clube, mas só que, agora, sem disponibilidade mental, estagnado, desvalorizado, com instabililidade fincaceira e profissional enorme, incapaz de o ver como uma prioridade (quando é isso que exigem), a sentir que estou a prejudicar o trabalho dos outros, vendo-o como um entrave para tudo o resto e a manter-me apenas pela palavra que dei em junho antes de todos os trambolhões.

A vida acontece, o tempo corre e as coisas não vêm a mudar... pelo contrário!
Vencemos as eleições, mas não fui eleito, nem fiquei com nenhum cargo de nomeação - algo que também não ambicionava, porque trazer-me-ia uma falsa perceção de estabilidade.
Entreguei a dissertação, mas agora parece que está dificil de marcar a data da defesa.
Continuo no clube a sentir exatamente as mesmas coisas (até um pouco mais intensas), estagnado e sem me dar estabilidade nenhuma, pelo contrário, sinto como sendo um dos maiores fatores de instabilidade, mas também não sinto preparado para carregar o peso das consequências que podem advir com a minha saída... daí questionar-me "até onde é que devo ser pessoa de palavra?".
Fiz uma proposta à tal oportunidade em que me deram 100% de certezas que aconteceria... ainda não sei se a certeza que me deram é realmente assim tanta... vamos ver onde acabam as negociações...

No meio desta instabilidade e indecisão e sabendo o que quero, o que não quero e o que ambiciono, decidi que vou apostar tudo no Saudar, em criar todo um universo e ecossistema em redor do Saudar!

Parece uma decisão bonita, mas, neste momento, tem tudo menos de bonito! Estou cagado de medo, até já passo noites em branco! E muito por saber que isto ainda demorará a gerar dinheiro e, consequentemente, autonomia e estabilidade... Apesar de saber que tudo será assegurado até ao dia em que as receitas do saudar permitam que me sustente, o medo é real e as dúvidas também... É questionar-me se não devia deixar de lado a minha decisão de não querer voltar às clínicas, quando a tomei para poder orientar-me para a saúde pública e para o que realmente gosto e assim poder criar sistemas verdadeiramente efetivos em vez de alimentar sistemas que favorecem a iniquidade em saúde... e, apesar de saber que a opinião dos outros não deve importar e de estar certo do porquê desta decisão, ainda penso como é que as pessoas veem a mesma, principalmente, as mais próximas... será que veem como "medo de trabalhar"? Apesar de estar consciente de que trabalho desde os 15 anos e nunca trabalhei tanto como nesta fase.

Face a tudo isto, a minha resposta inconsciente está a ser simples "quanto mais trabalhar, mais perto estou de gerar receitas"... Até um ponto onde vejo, por exemplo, o cozinhar, lavar loiça, colocar roupa a lavar, uma visita às minhas avós ou um jantar como perdas de tempo e entraves para que eu gere receitas mais rapidamente com o saudar. E com o clube? Nem se fala... esse sentimento ainda é muito maior, porque além de tempo, esgota a minha disponibilidade mental... Até dormir está dificil, porque a cabeça fica sempre a pensar.

Reconheço que nada disto está bem!!!
Então hoje prometi à psicóloga que vou fazer um compromisso comigo mesmo: 
"Vou Saudar-me enquanto estiver a fundar o Saudar"

Hoje, vou começar com o primeiro plano de autogestão do saudar e será para mim mesmo! 
O primeiro passo é partilhar tudo isto convosco! E, agora, tenho de tratar de desligar antes de dormir, pois sei que só terei um bom dia amanhã se hoje preparar bem o sono.

P.S.: isto tem tudo para ser uma série de instagram "Vem comigo ver todo o processo de criação da minha empresa aos 24 anos, enquanto treino todos os dias, tenho a defesa de uma dissertação de mestrado, tento saudar-me e faço voluntariado no clube da terra" (isto com sotaque de português do Brasil - sem discriminação, apenas porque é o idioma mais utilizado)

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